Trans-Homem, Trans-Mulher, violência e outros bichos

Por Ela

Já parou pra pensar com a cabeça de uma pessoa que se entende habitante de um corpo equivocado?

Sufocar sentimentos, desejos e sonhos pra tentar seguir os malucos padrões sociais e quando o forjado parceiro tira a roupa, sentir uma inveja paralizante do seu corpo de homem?

Parece talvez como uma lente de aumento extremamente forte na questão homosexual gay e sapatão. Um desconforto coma própria condição, um não aceitar-se como os outros esperam que você se porte ou se vista. Mas tudo isso extremamente maior, porque o desconforto nem precisa ser do outro, ele está em você, no espelho, na voz, na manifestação do hormônios.

Eu não “sei” na prática o é tudo isso, também não tenho contato próximo com essa realidade. E de repente por isso mesmo tenho uma curiosidade enorme de entender melhor essas pessoas, e vez por outra encontro algumas dessas historias que vou tentando montar no meu quebra-cabeças.

Uma das mais intrigantes pra mim foi uma reportagem bastante longa que a BBC fez com um rapaz que virou moça, que mais tarde viraria rapaz de novo. Este homem de uma tradicional família árabe, casado, pai de 2 meninos, se descobre envolvido por amigo. Na época já aos 20 e poucos anos. Se assume gay, já dá pra imaginar os problemas que enfrenta só aí.

Passados alguns anos de sua vida gay, sentindo-se ainda incompleto, errado, infeliz, faz a operação de trans gênero. É agora uma mulher árabe, enorme, desajeitada e solteira. Sim, seu companheiro a abandona após a cirurgia.

Vive mais alguns anos como mulher e, chega ao mesmo tempo à conclusão de que se equivocou ao fazer 1a cirurgia, e também se dá conta de que a vida como mulher é muito mais difícil.

Confesso que ri muito nessa hora. Queria que todo homem e mulher pudesse assistir a essa parte do depoimento pra entender onde estão os problemas que ninguém percebe, as dificuldades que, inseridas na vida cotidiana, passam desapercebidas.

Mas voltando ao nosso tema, eu fiquei intrigadíssima com a vida desta pessoa. Com a perturbação da sua cabeça, com a coragem das decisões que tomou, com todo o resto que imagino porque não coube na reportagem.

Alias, a própria vida depois da reportagem, pois ela estava com tudo agendado para novamente ser ele.

Essa história muito louca fica cozinhando na minha cabeça enquanto eu fico tentando entender. Enquanto isso aparecem trans-homens que engravidam, trans-homens que se vêem gays, trans-mulheres exageradamente femininas. E, cada um com a sua história, tem uma dor profunda em comum e muita coisa pra dizer.

João W. Nery é uma dessas pessoas que tem muito a dizer. Trans-homem de 61 anos, divididos matematicamente como mulher e homem. Além de tudo, um pensador, um psicólogo, um escritor. Um homem culto.

Esse cara lançou uma questão genial que queria muito propor aqui: o heterosexual precisa do “fora do padrão” para que ele mesmo seja considerado “o padrão”. Assim, o gay, a lésbica, o transexual, etc, etc, etc, são necessarios à condição de normalidade do heterossexual.

Se o “errado” precisa ser corrigido ou, paradoxalmente, eliminado, a violência contra os gays e trans não só se justifica como é também aplaudida por uma sociedade doente.

Vão dizer que estou exagerando. Mas aplaudir pode ser simplesmente fazer silêncio. Ouvir ou assistir impassivo à uma violência qualquer é como ser conivente com o crime. Basta fazer uma busca rápida para perceber que há um volume enorme de violências em nome da tal heterosexualidade “normal” por aí.

Então me parece que mais do que justificar a tal normalidade, somos também como um saco de pancadas animado, um video-game vivo. Porque muito se vê a respeito da violência contra os gays, trans, heteros que parecem gays, mas não muito respeito das punições. Tal como nos vídeo-games.

Recomendo: http://www.youtube.com/watch?v=tTqa5BgmEog&feature=youtube_gdata_player

Por Ele

Normalidade ou identidade. Prefiro dizer naturalidade. O vídeo que a querida Ela fez a crítica acima, dos 30 anos como trans-homem (ex mulher que virou homem) de João W. Nery mostra que os conceitos sociais de gênero (masculino e feminino) e sexo (homem e mulher) são formados pelas bases da heterossexualidade. Valores seculares que estão mudando a medida que nos desprendemos de modos tradicionais, morais e religiosos que não mais se aplicam à vida contemporânea, do hoje. Diga-se “vida contemporânea” aquela que possibilita a difusão da informação, de um reconhecimento plural da humanidade e que retoma ou enxerga pela primeira vez o ser humano acima de classificações antiquadas que a própria sociedade formou.

Os seres humanos pela necessidade de sobrevivência aprendeu em tempos remotos que o convívio social, em grupos, o tornariam mais hábeis e aumentariam as chances da sobreviência contra os inimigos naturais e outros grupos rivais que disputavam pela sobrevivência ou valores de poder. Só que com essa aglutinação, para criarem regras e condutas entre os próprios indivíduos, foram definidos valores, conceitos, políticas, hábitos, modos e cultura para que a própria sociedade se concebesse e se preservasse no próprio estado de sociedade. Nesse processo, na questão de sexualidade, a heterossexualidade que parecia garantir uma segurança em um mundo de muitos rivais numa luta constante pela sobrevivência, possibilitaria a perpetuação da própria sociedade. Nada mais natural e óbvio num cenário de desespero para sobreviver.

Esse modelos tiveram poucas variações e definitivamente se perpetuou por gerações e milênios. O que acontece é que nessa sociedade contemporânea o sentido visceral de sobrevivência está cada vez mais distante. Pois bem, se é assim, o que de fato as outras sexualidades que não a heterossexualidade podem causar à sociedade, mesmo que ela ainda preserve a necessidade de sobreviência e poder? Com a clareza e informação que temos hoje, vindas da ciência, da sociologia e das próprias relações diárias de um indivíduo perante a própria sociedade, sexualidade diferente da heterossexualidade reprodutória não quer mais dizer enfraquecimento ou, muito pelo contrário, a compreensão e a inclusão da diversidade numa sociedade contemporânea representa mais força. Principalmente nessa sociedade globalizada com tanta gente!

Abstraindo: essa coisa da preservação da espécie, ou da própria sociedade, me cheira forte o cheiro de grupos construídos por traumas de perdas, de entes, filhos e amigos que morriam inicialmente nos processos naturais, nas bocas de predadores e depois nas mãos de rivais até bem recentemente. Em outras palavras, o trauma ou o medo da desgraça era forte e movia a própria sociedade a se formar. Hoje não precisamos nos pautar mais nesses medos para nos entender em sociedade.

Utopia? Talvez, mas uma maneira bem resumida de alguns por quês das coisas serem o que ainda são hoje.

Pouco se pára para pensar do por quê de seguirmos modelos, métodos e regras e essa inércia acontece diariamente em nosso universo íntimo, nas famílias e no cotidiano. Por que afinal de contas uma mulher precisa casar de vestido branco na igreja, perante um padre idolatrando o altar sendo que muitas delas nem são mais efetivamente católicas? [Valorização do clássico]. Por que temos que louvar por um Jesus iluminadamente branco, de olhos claros, aloirado digno de um top model das passarelas do SPFW, cuja imagem idolatrada se formou pelo Renascimento? [Alienação pelo poder do belo]. Por que temos que acreditar no Papai Noel de roupas vermelhas, que nos visita todos os finais de ano, que em sua origem vestia-se de azul e foi a Coca-Cola que o tingiu de vermelho para associá-lo a marca? [Consentimento da manipulação].

Eis alguns hábitos culturais, dentre muitos outros que raramente paramos para pensar, que herdamos a milênios dessa sociedade que precisava se fortalecer. E nesse fluxo, de Jesus top model, noivas não católicas mas dentro de vestidos brancos e papai noel azul, levanto a questão: por que tão e somente a heterossexualidade? Para nos manter numa condição de procriação e perpetuação da espécie em situações constantes de ameaças? Para nos proteger do medo da perda, da desgraça e da diluição da força da coletividade?

Gente, esses valores se foram a milênios! Mas teimosos, tapados ou conformados com a sociedade da inércia seguimos. Ser gay, trans e bi exige um espírito crítico talvez maior do que aqueles que cumprem o menu social. Nos cobramos mais (ou é isso que se espera) para compreender os por quês de estarmos fora das “regras” e entender para onde devemos ir se é nosso interesse fazer parte das regras.

Muito do que estabelecemos a séculos atrás ainda são alicerces para hoje. Mas será que precisa? Creio que não. Podemos até devanear, afirmando que a sociedade atual é tão predatória como foi no passado. Mas não é bem assim. Não precisamos caçar com machadinha e defender o quadrado na base da porrada porque o vizinho pode roubar a plantação de cenoura! Pelo menos não deve ser assim nos países ou microcosmos mais evoluídos. Fora disso é estagnação, que também é uma condição humana.

Me parece que vivemos num universo muito mais apto a oferecer do que tomar posse, mas a tendência é querer enxergar o lado vazio do copo. Antigamente, as pessoas se apossavam dos terrenos para construir feudos. Apossavam na base do facão. Matavam “bruxas” porque desenvolviam remédios fitoterápicos e homeopáticos.

No tempo do meu pai, compravam terrenos como investimento e um tipo de garantia de status ou garantia para a velhice. No meu tempo e um pouco mais recentemente, o jovem anda pensando diferente. O jovem tem serviços a sua disposição de pousadas, hotéis e resorts. Os jovens coletivizam aluguéis de apartamentos e quiçá, muito em breve no Brasil, comprem juntos formando famílias de amigos e não famílias heterossexualizadas no modelo “propaganda de margarina”.

O mundo está mudando ou pelo menos busco viver essa parcela da mudança que não são poucos e não são somente gays, lésbicas e trans. Gosto da parcela desapegada que se enobrece em contraponto ao modelo de riqueza que definha. Obviamente o mundo é vasto e tem espaço para todos os jeitos. Eis o olhar: todos os jeitos que não quer dizer anarquia nem jogar todos os séculos de formação de sociedade fora.

Nesse fluxo de abstração, reflexões e pensamentos, primeiro vêm o “olhar mais natural” aos/às gays e depois aos trans. Não porque gays, como eu, são mais privilegiados. Mas porque numa escala de choque social, estético, ético, que inclusive inclui a transformação das próprias genitálias, o trans precisa martelar mais nessa sociedade da inércia (que odeia sair do tradicional) para a conquista de inclusão. Mudar os movimentos para o que aparentemente já funciona a milênios sempre vai dar mais trabalho. O que funciona há tanto tempo acomoda e exige muita clareza e disposição para mexer. É o mesmo que a lógica do novo ser mais capaz de mudar que o velho. Mas posso dizer que se existe necessidade todos mudam.

Continuo otimista acreditando que o antigo seremos nós, gays e trans. Em outras palavras, um dia seremos os contrários as novas ondas evolutivas porque deu tanto trabalho para ser assim. É tão seguro estar assim, por que temos que mexer? Achar que nos resumimos ao que somos, sem aceitar o que vier de novo, é o passo para aceitar a nossa própria condição de inércia.